Ao ser convidado para a cabine de imprensa para ver, em primeira mão, o último filme da saga Harry Potter, confesso que o coração de fã apertou. Por mais que eu seja, ao meu modo, parte do mundo de críticas e do mundo da imprensa, não houve como negar que meu lado fã simplesmente explodiu, e tudo que pude pensar foi “esse será o fim para mim”. Talvez, por isso, a crítica feita aqui embaixo tenha, ao mesmo tempo, o lado do crítico E o do fã. Porque foram sentimentos extremamente distintos, porém nem tão conflitantes, que me acompanharam durante toda a exibição.
Harry Potter lançou uma espécie de moda entre os filmes do gênero que foi dividir o capítulo final em duas partes. No começo, o que poderia ser um golpe de marketing para prolongar o fim da série – e, obviamente, lucrar ainda mais com as bilheterias – acabou se revelando uma jogada de sucesso. Talvez com base em algo que foi o grande pesadelo dos fãs ao longo desses dez anos de saga: o filme precisava ser detalhadamente explicado, e, nesse caso, corte de acontecimentos não seriam tão viáveis e fáceis de executar como nos demais filmes. Aliás, aos desatentos, fica o aviso: não perca nem ao menos um segundo. A parte 2 acumula o máximo de informações que pode, e ela vai exigir que você preste atenção em todas. Talvez, até, que saiba conectar com as informações cedidas na primeira parte, para não dizer aquelas que foram espalhadas ao longo dos demais filmes anteriores.
O fato é que o aparente “golpe” fez com que a adaptação de “Relíquias da Morte” se tornasse um filme coeso, bom de assistir, e ainda permitiu que todos os pontos pendentes da saga (ou quase todos – já falarei nisso) fossem finalmente resolvidos e completados. Isso não seria possível em apenas um filme. No final, a divisão ajudou a tornar a história muito mais clara, e trouxe a “Harry Potter” um final que creio que agradará a todos.
Claro que nem tudo são louros. Como disse acima – ou melhor, dei a entender – a parte 2 não escapa de falhas. Há alguns erros de continuidade de roteiro, quando personagens simplesmente aparecem sem explicação em alguns lugares (e, em alguns casos, também desaparecem sem prévio aviso), ou então quando certas informações são passadas para o espectador, sendo que não houve nada nos filmes anteriores – e incluo aqui a primeira parte do sétimo – que se conectassem a elas. O pior: para o filme, são informações que nada acrescentam. Talvez o que eu disse agora não faça muito sentido, mas como o lado fã não quer dar spoilers, deixarei que os próprios espectadores notem o que quero dizer.
Um ponto bem diferenciado da parte 2 é seu ritmo frenético. Não que o filme, em si, seja rápido: ele não é. Mas a maior parte da história se ocupa em mostrar a Batalha de Hogwarts. Em todos os oito filmes da saga Harry Potter, nenhum chegou perto deste, em quesito “ação”. A impressão que fica, ao fim do filme, é que você não parou em instante nenhum. Tudo acontece rápido demais, e de novo, tome cuidado. Não perca partes do filme, nem míseros segundos, porque as informações passam, e não voltam mais. Você realmente precisará delas.
Por falar em cenas de ação, aproveitarei e já farei meu comentário sobre os efeitos especiais (e, consequentemente, o 3D). Claro que não espero, em nenhum momento, que o filme pareça totalmente “natural” – isso é humanamente impossível, em uma saga de magia como Harry Potter. E o resultado do oitavo e último filme foi, num todo, muito positivo: os efeitos especiais foram trabalhados com muito cuidado e zelo, e ficaram relativamente bem casados com as cenas. Até mesmo as grandes explosões e os excessivos feitiços lançados foram bem administrados. O tom escuro do filme, talvez, tenha contribuído para que a grande quantidade de efeitos especiais com jogos de luz tenham sido satisfatória, sem serem demais, nem de menos.
Mas, em certos momentos (sobretudo no que se trata daqueles usados para transformar Ralph Fiennes em Lord Voldemort), os efeitos ficaram deveras artificiais. De novo: compreendo que é humanamente impossível fazer com que tudo fique com ares “reais”, numa saga que fala sobre magia; mas em alguns pontos os efeitos ficaram artificiais demais, com abuso do CG, quando simples maquiagem já resolveria. Para a nossa sorte, nada que comprometa o resultado final.
Ainda antes do 3D, aproveitarei que mencionei e falarei da maquiagem. Absolutamente brilhante em algumas situações, mas pecou em alguns pontos banais e, por que não dizer, bestas?
Pontos brilhantes: a criação dos mortos e feridos. Os atores ficaram exatamente como se esperavam: sujos, acabados, de roupas rasgadas, despenteados, machucados. Sangue, aliás, também veio em dose certa (talvez até demais, para alguns, em vista da tentativa de classificarem o filme para 14 anos – o que não foi aceito, como informou o representante da rede Cinemark ontem, antes da sessão começar, com nota já divulgada no Diário Oficial de que a classificação será mesmo 12 anos). No que disse respeito ao clima final de guerra, a maquiagem não deixou a desejar.
Outro ponto forte da maquiagem vai para o envelhecimento dos atores para o epílogo. Com possível exceção de Tom Felton (Draco Malfoy), que realmente me pareceu mais velho do que o personagem precisava ser, todos os demais ficaram em idades coerentes ao que o epílogo pedia. Deixaram de ser os adolescentes que vimos crescer, e se tornaram adultos, maduros. Cresceram, assim como todos os fãs.
Pontos fracos: os pequenos detalhes. Sim, erros que podem passar despercebidos, mas que existiram. Ou como explicar o rosto de Lord Voldemort pálido como o personagem pede, e as mãos de Ralph Fiennes quase morenas (e não graças à sujeira)? Outros erros bobos, como a cicatriz que desaparece em vários momentos da testa de Daniel Radcliffe (Harry Potter); os olhos de Daniel que ficam oscilando entre o azul natural e as lentes verdes (que, parece, foram finalmente usadas, especialmente para a morte de Snape); o ator Jason Isaacs (Lúcio Malfoy) com uma barba rala e negra (e, de novo, não graças à sujeira), sendo que seus cabelos são, no filme, loiros quase brancos… todos erros pequenos que meu lado fã pergunta por que estou elencando, sendo que não fazem a menor diferença para o andamento da história. E talvez seja por isso mesmo. Com uma produção que primou pela qualidade de maquiagem citada acima, como pôde deixar passar erros bobos como estes? Para a nossa sorte, novamente, os efeitos positivos superaram, em muito, os negativos.
Agora, o 3D. Não vamos negar que, depois da Warner ter voltado atrás na decisão de exibir “Relíquias da Morte – Parte 1” em 3D, o medo de que a conversão da parte 2 fosse insatisfatória abateu a quase todos que acompanham a saga. O que posso dizer é que isso não aconteceu. Nem mesmo o tom escuro da fotografia do filme atrapalhou a transposição da tecnologia, e a qualidade de imagem ficou absolutamente magnífica, como se espera de um filme exibido em 3D Real D. Para acompanhar o filme, foi cedido a todos os espectadores óculos especial, em formato de lentes redondas, como as de Harry, e iguais aos que o Cinemark dos Estados Unidos venderá ao seu público. Não sabemos se os fãs brasileiros terão essa oportunidade (esperamos que sim).
Porém, devo acrescentar que, apesar do filme ter sido convertido com sucesso para 3D (sem nenhuma falha, qualquer que seja), o uso da tecnologia também não acrescentou. Simplesmente está ali. Talvez faça diferença numa tela em Real D, como a usada no Shopping Eldorado, e obviamente será algo na tela do IMAX. Mas quem optar assistir com o clássico 2D, não perderá absolutamente nada. Talvez uma imagem de menor qualidade, mas nem tanto também. E sim, fãs, isso significa o que vocês pensaram: nada de Nagini te dando o bote. Nada de feitiços ricocheteando. No máximo, uma profundidade melhor trabalhada. Tirando isso, o 3D da parte 2 está neutro: nem ficou ruim, mas também não ficou espetacular, e muito menos foi usado a favor da história.
Para terminar essa (não) pequena crítica, vamos às atuações. O trio principal, composto de Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger) e Rupert Grint (Rony Weasley) estavam em sincronia, e os três não decepcionaram nos momentos de clímax. Do trio, dou destaque a Rupert Grint. O ruivo conseguiu que seu personagem brilhasse trazendo, mesmo em cenas de batalha, aquilo que é a marca principal de Rony Weasley: o humor. E sem ficar deslocado, o que é melhor. A combinação do roteiro de Rony, junto à atuação carismática de Grint, deram ao trio aquele alívio e leveza que não vemos há alguns filmes já.
Destaque também para a experiente Helena Bonham Carter (Bellatriz Lestrange). Helena não brilhou exatamente em seu personagem. Sua Bellatriz, apesar de ser como se pede - cruel, sádica e fanática (eu acrescentaria “louca”, mas talvez não seja muito educado) – peca pelas caricaturas excessivas e, em alguns momentos, pelos gestos exagerados também. Mas não há como não ver a versatilidade de Helena e a atuação brilhante como uma outra Bellatriz: a falsa, que na verdade é Hermione Granger (Emma Watson), sob efeito da Poção Polissuco. Quando Helena aparece pela primeira vez nesse personagem, você vê Emma Watson. Helena conseguiu, com maestria, mostrar que aquela não era a sua Bella, mas a Bellatriz de Hermione. Até mesmo o jeito de andar e as expressões faciais são praticamente idênticas às da Hermione de Emma, tentando desesperadamente se passar por Bellatriz. Por essa atuação, Helena merece reconhecimento, mostrando que sua experiência realmente faz diferença.
Mas, o que devemos assumir é que esse foi o filme de Alan Rickman (Severo Snape). A conversa que o ator teve com JK Rowling há dez anos, quando aceitou fazer o papel do professor carrancudo de Poções, se mostrou totalmente efetiva, e o talento de Rickman arrancou lágrimas da maior parte dos fãs presentes (e, se vi direito, de alguns críticos também). Não há como se manter neutro à cena da morte de Snape, e muito menos às lembranças que envolvem a história dele e de Lílian Potter (Geraldine Sommerville). E impossível não citar este spoiler em especial (se não quiser ver, não leia, embora aviso que este não seja muita coisa). A opção de coletar cenas dos filmes anteriores para compor as memórias de Snape só confirma o que fica claro ao final: Alan Rickman atuou os últimos dez anos somente para chegar a este momento. O seu Severo Snape foi meticulosamente trabalhado ao longo dos demais sete filmes para que, neste último, a história real do Príncipe Mestiço fosse retratada como ele, J.K. Rowling e todos os fãs queriam ver. E Alan Rickman sai consagrado como o grande personagem deste último episódio.
Por fim, a direção. Parece que, depois de um começo nada agradável em “Ordem da Fênix” e algumas falhas graves em “Enigma do Príncipe”, David Yates finalmente acertou o passo e encontrou seu caminho em “Relíquias da Morte”. O diretor conseguiu tirar o melhor daquilo que precisava tirar, imprimiu atmosfera e ritmo adequado à história, e conseguiu conciliar as necessidades da produção de um filme com os desejos dos fãs em ver a adaptação. Seu único erro, desta vez, talvez seja o pouco destaque que deu a personagens secundários, mas nada que afete o seu trabalho. David Yates achou sua fórmula de Harry Potter. E bem a tempo.
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 cumpre o que prometeu. Algumas falhas aqui, outros requisitos medianos ali, mas num todo vem redondinho, acertado, fechando quase todos os pontos que precisava fechar. Acaba uma saga de dez anos de um sucesso quase inacreditável. E também encerra uma saga de catorze anos, que se iniciou em 1997, quando J.K. Rowling lançou “Pedra Filosofal”. Um final digno, para uma saga que mudou muita coisa no mundo dos livros. Agora, é esperar para ver. E que venha Pottermore.
O fã que se despede
Aqui, eu estou realmente ignorando o lado crítico, e o fã vai dar seu último desabafo.
Você vai chorar dia 15. Se você for à premiére de SP ou do RJ, com Tom Felton, seu choro será no dia 14. Se você não for à estreia, você chorará no dia em que ver o filme, independente de quando. O fato é: não adianta negar, se preparar ou até mesmo dizer que para você, tudo bem terminar, porque Harry Potter continua no seu coração. Se você for fã de Harry Potter, você VAI chorar.
Quando digo isso, não falo porque quero ver os fãs chorando. Eu mesmo digo que seria mais merecedor se todos terminassem sorrindo, porque não há razões para tristezas. Harry Potter é uma saga de sucesso. Você esteve durante muito tempo com ele, viveu histórias e teve toda sua vida alterada por causa deste bruxo. Alguns, como eu, passaram a adolescência (e alguns, a infância) inteira se dedicando à saga. E tudo deu certo. Harry Potter terá o final digno que merece, e a promessa é que continue se eternizando. E a cada minuto que o filme passar, você sentirá isso, e nunca estará tão orgulhoso de ter sido parte desse fenômeno, até o fim. De estar presente neste momento.
E é por isso que irá chorar.
Quando o filme acabou, e começaram a aparecer os primeiros créditos, tive aqueles momentos de “toda a sua vida passando em um segundo na sua mente”. Neste caso em especial, toda a minha vida potteriana. Desde o momento em que ouvi falar de Harry Potter, aos onze anos, passando pela vez que li o primeiro volume, aos doze; e por todas as vezes em que corri para pegar emprestado os demais; por quando descobri que tinha filme; de me ver chorando para assistir ao segundo no cinema; ao choque de saber que Cedrico morria no quarto livro; às correrias das estreias a partir do terceiro filme; à ansiedade para ler o quinto livro (que parecia não chegar mais nunca) e saber quem afinal morreria; à surpresa de ganhar o sexto de minha irmã; ao primeiro momento doloroso, quando peguei o sétimo para ler e fiz questão de ler o epílogo para comprovar os boatos; ao ano de hiato entre o sétimo livro e o sexto filme – ano horroroso para os fãs -; à vez que assisti a parte 1 do sétimo filme… até aquele momento em que eu estava vendo os créditos do último.
Exatos dez anos.
O choro foi inevitável, óbvio, mas ao contrário do que pensei, sentia uma alegria que não saberia explicar. Tinha acabado para mim, é verdade – e acabou ainda mais cedo do que o esperado -, mas foi um verdadeiro momento de glória. Não é qualquer um que tem a honra de acompanhar esse sucesso quase que do começo ao fim. De estar presente quando acaba a Era e começa a Lenda. Acabou, sim. Mas o que acabou foi uma fase, e não a minha admiração pela saga e por sua autora. E agora, o destino me reserva alguma coisa diferente. E o passado me deu uma lembrança que sempre vou sentir orgulho de saber que vivi verdadeiramente. Intensamente.
E eu sei que isso soou piegas, mas é assim que espero que você se sinta ao fim do filme. No dia 14, 15, quando for. E se isso acontecer, chore. E abrace o fã que estiver ao seu lado. E riam. E se sintam felizes. Vocês são privilegiados.
Nós estivemos com Harry até o fim. E continuaremos com ele, mesmo depois disso. E você sabe por quê. Você sabe que é verdade.
Muito obrigado, Harry. Muito obrigado, J.K. Rowling. E mesmo com as mancadas todas, muito obrigado Warner.
Vocês me deram os melhores dez anos da minha vida.